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CUIABÁ 301 ANOS – João Balão

Sem lágrimas e com exibição de gala do pistonista Ditinho Saca-rolha. Assim foi o velório do homem que personificava a noite cuiabana. João Balão morreu vivendo sem abrir espaço em sua agenda, de um minuto sequer para a doença. Com seu adeus, Cuiabá se despediu do seu maior investidor nos anos 1970 e 80 e de um “homem …

Sem lágrimas e com exibição de gala do pistonista Ditinho Saca-rolha. Assim foi o velório do homem que personificava a noite cuiabana. João Balão morreu vivendo sem abrir espaço em sua agenda, de um minuto sequer para a doença. Com seu adeus, Cuiabá se despediu do seu maior investidor nos anos 1970 e 80 e de um “homem que viveu muito além de seu tempo”, nas palavras do ex-governador Júlio Campos, que foi à Sala das Hortênsias, na Capela Jardins, orar e se despedir do amigo. João Balão fechou os olhos para sempre na madrugada da quinta-feira, 29 de dezembro de 2016.

Noite e João Balão se fundiam, mas ele esteve presente 24 horas por dia na vida empresarial de Cuiabá. Sua visão construiu os hotéis Santa Rosa PalaceExcelsior Palace, o Porto Jofre Pantanal Palace e outros. Criou o Balneário Santa Rosa, os restaurantes Maria Taquara e Samambaia e a casa noturna Bataclan. Editou o jornal Equipe. Construiu o bairro Santa Rosa e parte do bairro Shangri-La. Esses empreendimentos impulsionaram o desenvolvimento de Cuiabá; o único fora da capital foi o Porto Jofre, que é um hotel situado em Poconé, na divisa com Mato Grosso do Sul, no ponto mais ao Sul da Rodovia Transpantaneira, à margem do rio Cuiabá.

Sua identificação com a noite começou quando abriu a Bataclan, que foi uma das maiores casas noturnas do Centro-Oeste. À época, Mato Grosso vivia importantes ciclos econômicos e o governo federal derramava dinheirama nos projetos agropecuários da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam); o garimpo do diamante movimentava o Vale do GarçasPoxoréu e a região de Diamantino; no Nortão, garimpeiros de ouro faziam fortuna do dia para a noite; empresários e aventureiros formavam filas nas agências do Banco do Brasil e da Amazônia em busca de financiamentos a juros baixos e com boa carência. O destino dos homens que movimentavam altas cifras nos municípios mato-grossenses era Cuiabá e mais precisamente o Bataclan, de João Balão, onde as mesas eram disputadas quase a tapas e mulheres bonitas faziam a noite não ter fim.

De boa paz. Assim era João Balão, mas quando alguém pisava em seu pé, a resposta era à altura. Dona Maria de Lourdes Fragelli era sua prima e mulher do governador José Fragelli. Certa feita, no começo do governo de Fragelli, em 1971, João Balão e ele se desentenderam.

Para fazer oposição a Fragelli, João Balão montou o diário Equipe, que entre outros teve em sua redação o ex-prefeito e ex-deputado Bento Lobo e o jornalista Paulo Zaviasky. Ao longo do governo de Fragelli, o jornal o criticou. Quando o contraparente deixou o poder, ele o vendeu.

“João Balão foi ousado. Numa época em que Cuiabá tinha apenas dois hotéis condignos, ele construiu grandes hotéis aqui. O empresário Walter Fontana, presidente da Sadia, quando sua empresa construía um aviário em Várzea Grande, vinha para Cuiabá para descansar nos hotéis do João Balão”, revelou Júlio Campos, no velório, acrescentando que a capital teria que decretar luto por sua morte.

Luiz Eduardo Cardoso Viegas, neto de João Balão, fala com orgulho sobre o avô e cita que o Restaurante Maria Taquara tinha até piano-bar. Viegas explica a obsessão do avô pelo nome Santa Rosa. “Rosa era como se chamava a mãe dele, e minha bisavó”. O apelido ele ganhou na infância, porque costumava soltar balões e pipas.

No auge dos seus empreendimentos, no começo dos anos 1980, se alguém em Cuiabá perguntasse pelo veterinário cuiabano formado no Rio de Janeiro, João Celestino Corrêa Cardoso Neto, somente seus familiares saberiam dizer de quem se tratava, porém, se a pergunta fosse “quem é João Balão?”, todos saberiam, porque esse apelido é que o tornou famoso. Enquanto veterinário, ele participou do Conselho Diretor da Fundação Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) ao longo da década de setenta, período inicial e o mais difícil da UFMT, tendo assinado inúmeras e importantes resoluções do Conselho, à época, presidido pelo reitor Gabriel Novis Neves.

Uma semana antes do seu adeus, João Balão foi ao Restaurante Tom Choppin, tradicional referência na gastronomia, que logo em seguida fecharia suas portas, depois de 18 anos de funcionamento. O dono do estabelecimento e músico, Geraldo Gonçalves, ao microfone, o reverenciou enquanto ícone da noite e agradeceu sua visita. Foi o encontro do adeus do cliente ilustre com a casa tradicional.

Dos seus três casamentos, João Balão deixa sete filhos. Aos 89 anos e esbanjando saúde para a idade, sentiu-se mal na terça-feira e um dia depois saía da vida noturna para entrar na história, no Cemitério Parque Bom Jesus de Cuiabá.

Eduardo Gomes – Atualizado e com parte de texto publicado no jornal Diário de Cuiabá um dia após o adeus de João Balão

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